Carta enviada por D. Pedro IV para a sua filha, futura Rainha D. Maria II de Portugal a 10 de junho de 1832

Documento/Processo, 1832/06/10 – 1832/06/10


Transcrição livre:

"São Miguel 10 de junho de 1832
Minha querida Maria. Recebi a tua cartinha de 10 de maio escrita um pouco mal para a tua idade e adiantamento parece-me que tu não tens cuidado muito de estudares, e enquanto a Mamã me não mandar dizer que tu te aplicas como no meu tempo eu não deixarei de te mostrar sempre que tenha ocasião e meu desprazer: quando tu minha filha chegares a uma idade mais avançada tu não deixarás de conhecer que eu tinha muita razão de te desejar ver instruída, o defeito de não ter recebido uma educação conveniente eu o tenho sentido, tudo que tenho feito tem sido porque Deus me tem favorecido; eu não quero que tu me julgues pelo futuro um pai descuidado de tua educação antes quero que me tenhas por severo.
O amor que eu te tenho minha querida filha é que me faz falar-te tão claro, eu espero que tu estudes de ora em diante como convém a quem tem que reger uma Nação que precisa de bons exemplos e de uma Rainha assaz instruída para a poder felicitar ajudada do sistema constitucional sem o qual jamais, minha filha queiras ser Rainha. Nos governos os mais absolutos nunca são os Reis os que mandam mais; ora se hão de mandar pessoas que nenhum interesse tenham senão o seu, desprezando o geral (como sempre aconteceu em Portugal) então melhor é que a nação representada tome parte no que lhe pertence de direito, que vigie pela sua estabilidade, independência, segurança e bem-estar.
Nenhum Monarca deve desejar mais poder que aquele que for necessário para engrandecer e felicitar a sua nação para a Carta Constitucional te concede bastante e portanto minha filha quando chegares a governar, Carta e mais Carta, e nada de absolutismo que só poderá servir para te deslustrar aos olhos do Mundo, infelicitar-te a à tua Nação. Basta de seca mas peço-te que tenhas esta seca sempre em vista e que a todo o tempo te lembres dos meus conselhos que te são dados com o coração nas mãos.
Adeus minha adorada filha recebe a bênção que te deita
Teu saudoso pai e amigo que bem depressa espera ver-te.
D. Pedro
P.S. Um abraço (com cautela) na mana Amélia , e outro sem nenhuma na Isabel ."

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