Ferreira, Onofre Domingues. 1905-1986

Produtor, 1933 – 1986


Onofre Domingues Ferreira, filho de Alexandre Domingues e Olinda Rodrigues, nasceu a cinco de julho de 1905 no lugar do Outeiro, freguesia de Gulpilhares, de onde eram também naturais seus pais. Com a idade de quatro anos, a família mudou-se para Mafamude. Aí, frequentou a escola primária oficial, junto do antigo largo do Mártir, (hoje Largo dos Aviadores), transitou de seguida para a escola oficial da Bandeira, tendo por fim realizado o exame de 4ª classe na Escola das Palhacinhas, Rua Cândido dos Reis (edifício da atual Junta de Freguesia de Santa Marinha e Afurada). Concluída a instrução primária, matriculou-se na Escola do Torne, onde teve como professores, o grande benemérito da instrução e ministro evangelista Diogo Cassels e o Padre José Nascimento. Neste estabelecimento, estudou francês e português, realizando os exames de 3º ano num liceu do Porto.
Entretanto, a família mudou para aquela cidade, ficando a residir na Rua de Liceiras nº 156, (atualmente Rua Alferes Malheiro). Precocemente, com cerca de 14 anos empregou-se num escritório, na Rua Sá da Bandeira (hoje edifício demolido para dar lugar à Praça D. João I), conciliando os seus estudos de contabilidade com o Professor Eduardo Pinheiro, na Rua do Almada. Nesta mesma rua, descobriu o seu segundo emprego numa casa de artigos gráficos, na firma A. Rodrigues, Lda, posto que o estabelecimento onde se achava cessou a sua atividade. Ao fim de dois anos, mudou novamente de colocação em virtude de um aumento salarial que lhe foi oferecido. Empregou-se na Casa dos Linhos, (estabelecimento que ainda hoje existe na Rua Fernandes Tomás). como ajudante de guarda-livros.
Subitamente, seu pai faleceu a 10 de Março de 1924, v´tima de ataque cardíaco. Tinha então Onofre Domingues Ferreira, 18 anos de idade. Este triste acontecimento traumatizou-o profundamente, chegando mesmo a fazer uma cura de repouso, na Lixa.
Por essa altura, também em consequência de ter deixado o seu emprego na Casa dos Linhos muda novamente de residência, regressando a Gulpilhares, com sua mãe, D. Olinda Rodrigues, para Rua Nunes Álvares e Largo da Igreja.
Através de um amigo, consegue nova colocação, desta vez na secção de Depósitos do Banco Espírito Santo, no Porto, onde se manteve por 18 anos. Aqui, sentiu-se realizado tendo sido sempre muito bem remunerado, em reconhecimento da sua grande dedicação. Paralelamente, com apenas 22 anos foi nomeado para o cargo de secretário da Junta de Freguesia de Gulpilhares. Teve como companheiros o Sr. David José da Rocha, em funções de tesoureiro e o Sr. José Barbosa, lavrador e proprietário de Francelos, na qualidade de presidente da Junta. Destacam-se deste mandado as obras de eletrificação de quase toda a freguesia, pois até àquela altura, apenas os lugares de Francelos, Marinha, Gulpilharinhos, Presa e Além, tinham luz elétrica, quando quase todas as freguesias do concelho estavam já eletrificadas. Foi também construído e coberto o lavadouro de Casais, bem como ampliado o largo defronte do apeadeiro de Francelos. Por último, mas não menos importante, foi o arranjo urbanístico que resultou no largo da Igreja. Implicou uma complexa negociação da Junta com os proprietários sendo assim possível a destruição de todo o casario em ruínas que impedia qualquer possibilidade de melhoramento.
A inauguração fez-se, com a presença do Presidente da Câmara, José da Fonseca Meneres, em 27 de dezembro de 1936. Do programa festivo, fez parte a primeira exibição do Rancho Regional de Gulpilhares, na freguesia, coletividade a que deu também grande impulso e à qual se dedicaria durante a maior parte da sua vida. Casou aos trinta anos com Maria Pontes Moreira da Rocha Domingues, de vinte e dois anos de idade, na Igreja Paroquial de Gulpilhares, pelo Padre Manuel Batista Cid, ficando o casal a residir na casa de família em Gulpilhares, na Rua Nunes Álvares. A nove de junho de 1936 nasceu a sua única filha Maria Olinda Rocha Domingues Ferreira. Em 1940 mudou de residência para uma casa, sua propriedade, na Rua da Vista Alegre em Valadares, onde permaneceu quinze anos. Este facto ocasionou um grande envolvimento na vida desta freguesia, onde fez parte da direção de algumas coletividades: Comissão de Festas de Valadares, Orfeão de Valadares e Bombeiros Voluntários de Valadares. De relevar, que foi neste período e com grande empenho seu, que se comprou a primeira ambulância para a Corporação, facto que à época, representava um enorme fator de qualidade de vida, a nível da saúde e segurança das populações. No plano profissional, após ter abandonado a carreira de bancário dedicou-se ao negócio imobiliário, nomeadamente em Vila Nova de Gaia e na cidade do Porto, onde construiu e vendeu diversos prédios. Dirigiu também a fábrica de moagem da Portela, propriedade de seu sogro, que se situava na quinta do mesmo nome em Gulpilhares a qual progrediu bastante durante a sua gerência, Em 1955, veio residir para a Avenida Marechal Carmona (atual avenida da República) para uma moradia desenhada pelo Arquiteto F. Lopes, onde viveu até ao fim dos seus dias.
Apesar de ser um homem abastado e realizado em todas os aspetos da sua vida pessoal e profissional, Onofre Domingues Ferreira, homem profundamente católico, era também muito humano e solidário para com os mais necessitados. Assim, estando nesse tempo a decorrer no país uma grande campanha a favor da habitação para famílias carenciadas, impulsionada pelo Padre Américo, aproveitou a conjuntura para promover a construção das Casas para Pobres em Gulpilhares. Para tal, dinamizou a criação de uma comissão que incluiu os seguintes membros: Padre Luciano, Joaquim Duarte Pereira, Benjamim Jorge dos Santos Moreira, Ilídio Mendes, Artur Almeida Magalhães, Fortunato Carvalho, Maurício Correia. Conseguiu auxílio financeiro camarário, tendo ele próprio oferecido terreno, graças ao que foram construídas as duas primeiras moradias: casa de Santo Onofre e casa de Nossa Senhora da Saúde inauguradas a 29 de Maio de 1955. Posteriormente, contribuiu para a construção de outras casas, com a doação de mais terrenos.
Em suma, o longo da sua existência, teve uma vastíssima participação na vida pública, tendo desenvolvido várias atividades, funções e cargos em instituições locais. Aquela a que mais se dedicou, foi o Rancho Regional de Gulpilhares, obra a que deu o primeiro impulso e que simultaneamente porventura o terá projetado para uma maior notoriedade pública, conotando-o com o mundo da etnografia, do folclore e da internacionalização da coletividade, da freguesia, do concelho de Vila Nova de Gaia e mesmo de Portugal. Foi o sócio nº 1 e presidente da direção durante quatro décadas sendo posteriormente Presidente Honorário. É de referir que foi o iniciador dos Festivais Internacionais de Gulpilhares. Levou o Rancho a percorrer o mundo e a participar em Concursos Internacionais em que se conta o 3ª prémio obtido por este grupo entre Ranchos de todo o mundo, inclusive os peles vermelhas. Isto aconteceu no maior festival folclórico da Europa que se realizou em Dijon, França. Também iniciou os desfiles enográficos que tanto êxito tiveram e que já não se realizam atualmente, aliás deixaram de se realizar desde o seu afastamento do Rancho Regional de Gulpilhares como presidente da direção. Estes cortejos constituíam uma variante interessante e única nos festivais folclóricos do País. Era uma demonstração de trajes e costumes antigos de todo o concelho de Gaia. Era uma tarefa árdua na qual era ajudado pela sua dedicada esposa. Foi também ele que teve a ideia e a pôs em prática dos Concursos da quadra popular ao Senhor da Pedra, que tanto êxito tem tido. A par deste grande amor, dedicou-se a variadíssimas outras organizações de que se destacam: Amigos do Mosteiro da Serra do Pilar, Associação Cultural dos Amigos de Gaia, de que foi cofundador, da Associação das Aldeias de Crianças S. O. S de Portugal, da Associação das Creches de Santa Marinha, Associação Desportiva, Recreativa e Cultural do Rancho Regional de Gulpilhares, da Associação dos Antigos Alunos das Escolas do Torne e do Prado, de que também foi cofundador, presidente da Direção dos Bombeiros Voluntários de Valadares, membro da direção do Orfeão de Valadares, membro da Comissão do Património dos Pobres [Gulpilhares], presidente da Direção do [Âncora] Gulpilhares Futebol Clube, vogal e posteriormente presidente da Junta de Freguesia de Gulpilhares, mesário da Misericórdia de Gaia, membro da direção do Lar Salvador Brandão, presidente da Direção da Sociedade Musical 1º de Agosto.
A morte prematura de sua esposa D. Maria Pontes Moreira da Rocha Domingues Ferreira em 1982, companheira de uma vida partilhada com grande cumplicidade, constituiu um duro golpe. Sobreviveu-lhe ainda quatro anos, falecendo a 18 de janeiro de 1986, com 81 anos de idade vítima de doença súbita.

  • Unidades Documentais

  • Descrição
    • Tipo de entidade Pessoa

    • Código parcial ODF
    • Data de produção 1933 – 1986
    • Data de existência 1905 – 1986
    • História arquivística

      O arquivo pessoal Onofre Domingues Ferreira, é constituído por reproduções digitais de documentos originais em suporte papel, propriedade de seus herdeiros. Inclui três séries documentais, assim mesmo organizadas pelo produtor, a saber: fotografias, recordações e revistas.

    • Língua
      Portuguese
    • Alfabeto
      Latin
    • Unidades de descrição relacionadas

      Fundo: Rancho Regional de Gulpilhares e Fundo: Maria Olinda da Rocha Domingues Ferreira.

    • Nota de publicação

      Fundo: Rancho Regional de Gulpilhares e Fundo: Maria Olinda da Rocha Domingues Ferreira.