O Comércio do Porto

Produtor, 1854/06/02 – 2005/07/30


O Comércio do Porto constituiu, à data da sua suspensão (2005), o jornal mais antigo da imprensa continental (o mais antigo é o Açoriano Oriental). Esta publicação periódica, que contou com 151 anos de vida, é, actualmente, um repositório inalienável da história narrativa da cidade do Porto e da região Norte, perspectivando as interacções diacrónicas entre o núcleo urbano e todo esse vasto hinterland mais ou menos rural.
Este jornal foi fundado com o objectivo claro de ser uma alternativa à oferta existente na altura. Numa cidade de 85 mil habitantes, servida por onze jornais francamente politizados, haveria, por certo, lugar para um periódico alternativo, livre e inovador, atento às reais necessidades económicas, históricas e instrutivas daquela praça. De facto, essa foi a justificação avançada pelos respectivos fundadores na primeira página do número inaugural:

"A Praça do Porto precisa dum Jornal do Comércio, Agricultura e Indústria, onde se tratem as matérias económicas, históricas e instrutivas destes poderosos elementos em que assenta a prosperidade das nações modernas. A Praça o reclama, pela sua importância no interior e pelo seu nome nos mercados estrangeiros. (…)
Nesta época, em que a nação portuguesa, ávida de ciência, busca a resolução dos seus principais problemas de economia agrícola, industrial e de comércio, passando-os pela fieira da discussão, nas câmaras e na Imprensa, um Jornal privativo destas matérias será, entendemos nós, bem recebido na Praça do Porto. (…)
Faremos todos os esforços para revestir o nosso Jornal do que se tornar interessante, por qualquer modo, dos Comerciantes, Agricultores e Industriais, e, se não pudermos alcançar o nosso fim, deixaremos o campo a quem melhor possa substituir-nos. (…) " (O Comércio do Porto, de 02-06-1854)

Em 1884 falecia um dos fundadores, Manuel de Sousa Carqueja, passando o jornal para a direcção do sobrinho, Bento de Sousa Carqueja (1860-1935), Este insigne homem da cultura e do jornalismo, marcou indelevelmente uma orientação benemérita do jornal, tendo contribuído para a construção de habitação social, para o apoio às vítimas de calamidades e de epidemias e tendo mantido, inalterável, uma preocupação constante com os mais desfavorecidos socialmente.
Este homem singular, de cariz humano e cultural excepcional, acarinhou, desde o primeiro momento, a “querida Jóia de família” que lhe fora confiada, empregando todo o seu esforços e saber para a valorizar e dignificar constantemente. No octogésimo aniversário de “O Comércio do Porto”, Bento Carqueja publicou uma pequena monografia onde traça as principais etapas de crescimento deste jornal e onde esclarece os ideais e os objectivos que nortearam o seu trabalho neste periódico:
Por um conjunto de circunstâncias, O Comércio do Porto representa hoje uma instituição intimamente ligada à tradição da cidade do Porto, em quase metade do século XIX e em mais do que o primeiro quartel do século XX. Tem procurado servir a causa da Pátria, com bastante dedicação e suficiente desejo de lhe ser prestimoso.
Tenho acompanhado a vida do jornal, nos últimos cinquenta anos. Recebi dos seus fundadores informação oral sobre os esforços que empregaram e os sacrifícios heróicos que se impuseram para fazer vingar a sua iniciativa. Com a minha morte desaparecerá, pois, a única fonte directa de tradição oral, relativa aos primeiros anos do jornal.
É, portanto, justificada homenagem, associada a inconfundível dever de gratidão, arquivar factos que se prendam com a existência de O Comércio do Porto – herança de honra que me foi confiada e à qual tenho consagrado a melhor parte da minha actividade e da minha inteligência. (…)
Tem querido mantê-lo paladino da Liberdade, começando por adoptar o lema de Chateaubriand: “Não se conhece governo representativo sem liberdade de imprensa”. Tem-se esforçado por o manter independente de pressões e sugestões de qualquer ordem, venham elas de onde vierem. Tem diligenciado fazer intervir o jornal na solução dos grandes problemas nacionais, sem preocupação de política partidária; apenas dessa política resumida na mais pura noção do Bem e da Pátria. Tem procurado que O Comércio do Porto, actualizado, dia a dia, e constantemente vivificado com novos elementos intelectuais e morais, seja um valor na Imprensa portuguesa.
Deus sabe quantas ilusões e quantas desilusões tem trazido consigo a execução de tão vasto e tão complexo objectivo!... (…)
Morrerei contente, se conseguir deixar a grande obra jornalística, por mim herdada, tão pura nos seus processos, tão alevantada nas suas aspirações, tão vinculada ao Bem da minha Pátria, como a recebi dos seus fundadores e como tenho procurado conservá-la – QUERIDA JOIA DE FAMÍLIA!" (CARQUEJA, Bento – O Comércio do Porto ao completar 80 anos. Notas para a sua história. Porto: O Comércio do Porto, 1934)

A atestar a modernidade deste jornal está o facto de O Comércio do Porto ter sido um dos primeiros jornais portugueses a ter correspondentes no estrangeiro, ainda no século XIX, chegando mesmo a ter, na época, correspondentes no Brasil e no Japão.
Um dos traços característicos deste matutino portuense foi o folhetim. Camilo Castelo Branco e Júlio Dantas foram dois dos escritores que publicaram romances em folhetins n’O Comércio do Porto e que mais tarde viriam a ser editados em livro.
Outra aposta deste matutino diário portuense, foram os suplementos. Depois de em 1892 ter presenteado os seus leitores com exemplares da revista francesa Figaro Ilustre, em 1893 o jornal lançou um número especial chamado o Comércio do Porto ilustrado, cuja publicação haveria de se manter anualmente pelo Natal até à Segunda Guerra Mundial. Em Setembro de 1903, foi criado um mensário difusor de conhecimentos e práticas ligadas ao mundo agrícola chamado O Lavrador, que mais tarde foi transformado em revista (Livraria do Lavrador). A nível de agricultura foram também editados dezenas de livros.
Após o 25 de Abril, em pleno Processo Revolucionário em Curso, chegou a imprimir 120 mil cópias. Na década de 90 ocorreu uma contínua descida das tiragens e, em 2001, foi vendido ao grupo espanhol Prensa Ibérica. O investimento da Prensa Ibérica passou por uma remodelação gráfica, coincidindo com os 150 anos do jornal, em 2004. A filosofia editorial permanecia idêntica - abordagem aos temas regionais relativos ao Norte do país.
Na sequência dessa reformulação interna em 2004, e após ter mantido a mesma imagem inalterada durante décadas, O Comércio do Porto saiu para as bancas com um novo rosto, no qual, o logótipo e o tipo de letra do cabeçalho "Gótico" foram actualizados e os conteúdos reorganizados. O Norte do País continuou a ser a ponto forte de O Comércio do Porto . Aos domingos, saía juntamente com o jornal o suplemento "Motor".
Apesar da tentativa de viabilização empreendida pelos seus novos proprietários, o jornal acabou por não se revelar economicamente viável, tendo sido editado, pela última vez, em 30-07-2005.

Fontes: CARQUEJA, Bento - O Comercio do Porto ao completar oitenta anos : notas para a sua história. Porto: Comércio do Porto, 1934; O Comércio do Porto, Ano XCIX, n.º 150; http://dn.sapo.pt/inicio/interior.aspx?content_id=618057; http://teoriadojornalismo.ufp.pt/livros/carqueja1925/; http://www.infopedia.pt/$o-comercio-do-porto; http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Com%C3%A9rcio_do_Porto.

  • Unidades Documentais

  • Descrição
    • Formas paralelas
      • O Comércio
      • O Commercio
      • O Commercio do Porto
    • Tipo de entidade Coletividade

    • Código parcial JCP
    • Data de produção 1854/06/02 – 2005/07/30
    • Data de existência 1854/06/02 – 2005/07/30
    • Zona geográfica

      1854- Rua de Belmonte;
      1854-1857- Rua de S. Francisco (actual Rua Nova da Alfândega);
      1857-1929- Rua da Ferraria de Baixo (actual Rua de O Comércio do Porto);
      1929-1991- Avenida das Nações Aliadas (actual Avenida dos Aliados);
      1991-2005- Rua Fernandes Tomás.

    • Estrutura interna

      Fundadores:
      - Henrique Carlos de Miranda (17-09-1932 / 13-02-1902)
      - Manuel de Sousa Carqueja (23-11-1821 / 21-10-1884)

      Directores
      1854-1954 (exemplos):
      - Henrique Carlos de Miranda;
      - Manuel de Sousa Carqueja;
      - Germano Meireles;
      - Bento de Sousa Carqueja;
      - Fortunato Seara Cardoso
      1978-1982:
      - Joaquim Queirós
      ?-2005:
      - Rogério Gomes

      Chefes de redação
      1854-1954 (exemplos):
      - Acácio Pereira da Conceição (27-02-1850 a 19-04-1914)
      - Alberto Martins de Viterbo e Silva (18-05-1871 a 09-06-1922)
      - António da Silva Caldeira (n. 20-12-1867)
      - João Narciso do Cruzeiro Seixas (Dez de 1946 a 10-11-1921)

      Redactores principais
      1854-1954 (exemplos):
      - António Joaquim Xavier Pacheco (f. Dez de 1863)
      - António Rodrigues de Sousa e Silva
      - Bento Carqueja
      - José Joaquim da Silva Bravo
      - José Joaquim Pinto Coelho
      - José Luciano de Castro (1834-1914)
      - Rodrigues de Freitas (1840-1896)

      Jornalistas
      1854-1954 (exemplos):
      - Afonso Passos
      - Alexandre Vasconcelos
      - Alfredo de Matos Agra
      - António Barrote
      - Arlindo de Azevedo
      - Augusto Martins
      - Barrote Júnior
      - Carlos F. Barroso
      - Carlos Machado
      - Coelho Neto
      - Correia de Brito
      - Eduardo Augusto Salgado
      - Gualdino de Campos
      - Gustavo Malheiro
      - Hugo Rocha
      - Jaime Ferreira
      - João Arnaldo Maia
      - José Artur de Oliveira Portugal
      - Leite Maia
      - Luís Martins
      - Manuel Filipe
      - Manuel Maria Rodrigues
      - Manuel Ribas
      - Manuel Semplano
      - Norberto de Araújo
      - Óscar Paxeco
      - Ribeiro dos Santos

      1854-1954 (exemplos):
      - Afonso Passos
      - Alexandre Vasconcelos
      - Alfredo de Matos Agra
      - António Barrote
      - Arlindo de Azevedo
      - Augusto Martins
      - Barrote Júnior
      - Carlos F. Barroso
      - Carlos Machado
      - Coelho Neto
      - Correia de Brito
      - Eduardo Augusto Salgado
      - Gualdino de Campos
      - Gustavo Malheiro
      - Hugo Rocha
      - Jaime Ferreira
      - João Arnaldo Maia
      - José Artur de Oliveira Portugal
      - Leite Maia
      - Luís Martins
      - Manuel Filipe
      - Manuel Maria Rodrigues
      - Manuel Ribas
      - Manuel Semplano
      - Norberto de Araújo
      - Óscar Paxeco
      - Ribeiro dos Santos

      Colaboradores (articulistas, cronistas, folhetinistas, etc.)
      1854-1954 (exemplos):
      - A. Guerra Tenreiro
      - A. Santos Martins
      - Agostinho de Campos (Professor)
      - Alberto Pimentel
      - Alfredo Keil
      - Ângelo Vaz (Ignotus)
      - António Barroso (Bispo)
      - António de Serpa Pimentel (Conselheiro)
      - Armando Xavier da Fonseca
      - Arnaldo Gama (Escritor)
      - Augusto da Costa
      - Bordalo Pinheiro
      - Camilo Castelo Branco (Escritor)
      - Carlos Malheiro Dias (Escritor)
      - Carolina Michaelis de Vasconcelos (Professora)
      - D. Amélia (Rainha)
      - D. Carlos (Rei)
      - Emílio Castelo Branco
      - Fernandes Costa (General)
      - Fradesso da Silveira
      - Guerra Junqueiro
      - Guerra Maio
      - H. Pires Monteiro (Coronel)
      - Henrique Lopes de Mendonça (Escritor)
      - Hintze Ribeiro (Conselheiro)
      - Isaura Correia Santos
      - Jaime Batalha Reis (Escritor)
      - João Arroyo
      - João de Deus
      - Joaquim de Vasconcelos (Musicólogo)
      - José Batista Barreiros (Coronel)
      - José Dinis
      - José Malhoa
      - Júlio Dantas (Escritor)
      - Luciano Cordeiro (Colonialista)
      - Luís de Oliveira Guimarães
      - Luís Torrezão Veiga da Cunha (Pax)
      - Margarida Magalhães
      - Maria Amélia Vaz de Carvalho (Escritora)
      - Miguel de Bulhões
      - Moreira de Sá (Musicólogo)
      - Pacheco de Amorim
      - Pedro Ivo (Escritor)
      - Pinheiro Chagas (Escritor)
      - Pinheiro Torres
      - Rebelo da Silva (Escritor)
      - Roque Gameiro
      - Salvador Barata-Feyo
      - Serafim Rodrigues
      - Serras e Silva
      - Teixeira de Vasconcelos (Escritor)
      - Venceslau Morais (Escritor)
      - Viana da Mota

      Correspondentes:

      Paris:
      - José da Silva Mendes Leal;
      Londres:
      - Eugene Osswald;
      Madrid:
      - Benigno Joaquim Martinez;
      Berlim:
      - Eduard Engel;
      Roma:
      - Giovanni Zedda;
      Rio de Janeiro:
      - José Dionísio de Mello e Faro;
      - Manuel de Salgado Zenha (Barão de Salgado Zenha);
      - Fernando Castiço.

    • Outra informação

      Designação do periódico:
      02-06-1854 a 31-12-1855: O COMERCIO (O Commercio)
      01-01-1856 a 30-07-2005: O COMERCIO DO PORTO (O Commercio do Porto)

      Periodicidade:
      Trissemanal (02-06-1854 a 29-12-1854);
      Diário (01-01-1855 a 30-07-2005)

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      No núcleo do jornal "O Comércio do Porto" depositado no AMSMB não existe qualquer exemplar do 2º semestre de 1855, do 3º trimestre de 1934 e do 1º trimestre de 1937.
      Dado o mau estado de conservação em que se encontram e, pelo facto de coincidir com a inexistência de exemplares alternativos, este serviço não disponibiliza para consulta o 1º semestre de 1905, o 2º semestre de 1920, o 2º trimestre de 1944 e o 4º trimestre de 1945.

      Exemplares encadernados inexistentes:
      - 1855 (1º e 2º semestre);
      - 1891 (1º semestre);
      - 1934 (3º trimestre);
      - 1937 (1º trimestre);
      - 1945 (4º semestre);
      - 1964 (2º semestre);
      - 1975 (2º semestre).

      Exemplares encadernados indisponíveis para consulta dado o mau estado de conservação em que se encontram:
      - 1860 (1º semestre);
      - 1861 (1º e 2º semestre);
      - 1865 (2º semestre);
      - 1866 (1º semestre);
      - 1869 (1º e 2º semestre);
      - 1870 (1º semestre);
      - 1885 (1º semestre);
      - 1895 (2º semestre);
      - 1901 (2º semestre);
      - 1903 (2º semestre);
      - 1905 (1º semestre);
      - 1920 (2º semestre);
      - 1944 (2º trimestre);
      - 1945 (3º trimestre).

      Exemplares avulsos inexistentes:
      - 1855 (2º semestre);
      - 1856 (1º semestre);
      - 1857 (1º e 2º semestre);
      - 1858 (2º semestre);
      - 1868 (2º semestre);
      - 1904 (1º e 2º semestre);
      - 1905 (1º e 2º semestre);
      - 1906 (1º e 2º semestre);
      - 1907 (1º e 2º semestre);
      - 1908 (1º e 2º semestre);
      - 1909 (1º e 2º semestre);
      - 1910 (1º e 2º semestre);
      - 1911 (1º e 2º semestre);
      - 1912 (1º e 2º semestre);
      - 1913 (1º e 2º semestre);
      - 1914 (1º e 2º semestre);
      - 1915 (1º e 2º semestre);
      - 1916 (1º e 2º semestre);
      - 1917 (1º e 2º semestre);
      - 1918 (1º e 2º semestre);
      - 1919 (1º e 2º semestre);
      - 1920 (1º e 2º semestre);
      - 1921 (1º e 2º semestre);
      - 1922 (1º e 2º semestre);
      - 1923 (1º e 2º semestre);
      - 1924 (1º e 2º semestre);
      - 1925 (1º e 2º semestre);
      - 1926 (1º e 2º semestre);
      - 1927 (1º e 2º semestre);
      - 1928 (1º e 2º semestre);
      - 1929 (1º e 2º semestre);
      - 1930 (1º, 2º, 3º e 4º trimestre);
      - 1931 (1º, 2º, 3º e 4º trimestre);
      - 1932 (1º, 2º, 3º e 4º trimestre);
      - 1933 (1º, 2º, 3º e 4º trimestre);
      - 1934 (1º, 2º, 3º e 4º trimestre);
      - 1935 (1º, 2º, 3º e 4º trimestre);
      - 1936 (1º, 2º, 3º e 4º trimestre);
      - 1937 (1º, 2º, 3º e 4º trimestre);
      - 1938 (1º, 2º, 3º e 4º trimestre);
      - 1939 (1º, 2º, 3º e 4º trimestre);
      - 1940 (1º, 2º, 3º e 4º trimestre);
      - 1941 (1º, 2º, 3º e 4º trimestre);
      - 1942 (1º, 2º, 3º e 4º trimestre);
      - 1943 (1º, 2º, 3º e 4º trimestre);
      - 1944 (1º, 2º, 3º e 4º trimestre);
      - 1945 (1º, 2º, 3º e 4º trimestre);
      - 1946 (1º, 2º, 3º e 4º trimestre).

    • Tradição documental
      Original
    • Ordenação
      Cronológica
    • Condições de acesso

      A comunicabilidade dos documentos está sujeita ao regime geral dos arquivos e do património arquivístico (Decreto-Lei nº 16/93, de 23 de Janeiro).

    • Língua
      Portuguese
    • Alfabeto
      Latin
    • Material de suporte
      Papel
    • Técnica de registo
      Impresso

  • Relações